Já tentaste fazer marmitas para a semana.
Provavelmente num domingo de janeiro, com caixas novas compradas de propósito, um menu escrito na porta do frigorífico e a intenção firme de que desta vez ia ser diferente.
E à quarta-feira tinha acabado.
O que te aconteceu acontece a quase toda a gente. A conclusão que tiraste é que foi disso: falta de organização, falta de disciplina, feitio. Mais uma coisa que começaste e não acabaste.
Não foi nada disso.
Desististe porque o plano estava mal construído – e vale a pena perceber onde, porque os planos de refeições falham sempre pelas mesmas quatro razões, e nenhuma delas é sobre ti.
1. A corrente
Abre qualquer livro de batch cooking ao calhas e encontras um plano com esta forma: ao domingo assas um frango, à segunda comes o frango assado, à terça o resto vira salada, à quarta a carcaça vira caldo, à quinta o caldo vira sopa com os legumes que sobraram de terça.
No papel é elegante. Nada se desperdiça e cada dia alimenta o seguinte.
Na prática: à terça almoçaste fora com um colega. Não há frango. Quarta, não há caldo. Quinta, não há sopa. Um dia falhado arrasta os três seguintes atrás dele – e ainda ficaste com legumes crus no frigorífico que agora não têm destino nenhum e que vais deitar fora no sábado.
É isto que significa corrente: cada dia é a matéria-prima do dia seguinte. Parece eficiência e é o contrário, porque as correntes partem sempre no elo mais fraco – e numa semana com trabalho, filhos e imprevistos há sempre um elo fraco.
2. O plano da semana perfeita
O segundo defeito é irmão do primeiro, mas mais subtil.
O plano assume que a semana corre como foi escrita. Cinco dias iguais, cinco almoços à mesma hora, cinco vezes com a mesma fome e a mesma disposição.
Só que há o miúdo que acorda com febre. A reunião que entra pela hora de almoço. O dia em que te apetece comer quente e só tens salada. O convite do colega que não vais recusar por causa de uma marmita.
Nada disso é um desastre e nada disso é indisciplina. Isso é uma semana.
Um sistema que exige que nada se atravesse, montado dentro de uma vida onde tudo se atravessa, não tem como sobreviver. E o pior é o que faz à cabeça de quem o segue: cada desvio começa a parecer uma falha pessoal, quando é só a vida a acontecer exactamente como prometido.
3. A porta que não existe
Este é o verdadeiro culpado, e é o mais fácil de resolver.
Quarta-feira à noite, o plano está desfeito. E a sensação que tens é que para voltares terias de recomeçar do princípio: refazer a lista, ir às compras, esperar pelo domingo.
Como recomeçar é caro, não recomeças.
Esperas pelo domingo seguinte. E no domingo seguinte a memória que levas contigo é a de uma semana falhada, o que torna o domingo a seguir mais pesado do que o anterior. Duas ou três voltas destas e instala-se a conclusão: isto não é para mim.
Repara que o problema não foi a quarta-feira. A quarta-feira ia acontecer de qualquer maneira.
O problema foi não existir nenhuma porta mais perto do que o princípio.
4. A manutenção que come o ganho
O último defeito é o mais silencioso, e é o que faz desistir as pessoas mais organizadas.
Há sistemas que funcionam – só que custam mais a manter do que aquilo que poupam. A folha de cálculo com os menus. A aplicação onde registas as refeições. A lista que muda todas as semanas e tem de ser reescrita todas as semanas. O inventário do congelador.
Um sistema tem de devolver mais do que custa a manter. Quando exige mais registo do que a simplificação que entrega, a carga mental sobe em vez de descer.
E a partir daí, abandoná-lo passa a ser a decisão certa. Quem larga um sistema destes não falhou – fez as contas bem.
O que faz durar as marmitas para a semana
As quatro razões têm a mesma origem. São todas consequência de uma decisão de desenho que ninguém discute porque parece óbvia: cozinhar refeições.
A alternativa é cozinhar outra coisa.
Não cozinhas refeições. Cozinhas bases independentes.
Uma base é um componente acabado que não precisa de nenhum outro para existir: frango assado, grão temperado, legumes do forno. Cada uma vive sozinha no frigorífico e não deve nada às outras.
A refeição não se cozinha – monta-se, na hora, com duas ou três bases e um molho.
Repara no que isto resolve de uma assentada. Falhaste um dia? As bases continuam lá amanhã. Apeteceu-te outra coisa? Mudas a montagem. Sobrou uma base? Passa para a semana seguinte.
Uma corrente não vale nada no momento em que um elo parte. Um monte de blocos, tirando-lhe um, continua a ser um monte de blocos.
E resolve também o quarto defeito, o da manutenção – porque se as bases não mudam de semana para semana, a lista de compras é sempre a mesma. Escreves uma vez, fotografas, e nunca mais a escreves. Não há menu para planear, não há nada para registar em lado nenhum. É a diferença entre um sistema que te devolve tempo e um que te cobra uma renda semanal em atenção.
Seis bases chegam para a semana toda, e fazem-se em duas horas ao domingo – mas isso já é a parte mecânica, e a mecânica é a parte fácil depois de perceberes porque é que o resto falhava.
E na quarta-feira em que parte à mesma?
Porque vai partir. Isso não é uma possibilidade, é uma certeza – não por falta de disciplina, mas porque tens uma vida com trabalho, com pessoas e com imprevistos.
A diferença é que com bases independentes, quarta-feira à noite não tens zero. Abres o frigorífico e o que falta são as duas bases que duram menos e que já deviam estar comidas. As outras quatro estão lá.
Não recomeças do princípio. Recomeças de onde estás.
Duas Horas ao Domingo é o sistema completo: as seis bases com quantidades, tempos e temperaturas, o cronómetro minuto a minuto das duas horas, a tabela de montagem que dá cinco refeições diferentes sem repetir um molho, e quatro protocolos de recuperação para a semana que corre mal – de quinze minutos a uma hora, consoante o estrago.
Inclui a parte que nenhum outro livro escreve: a marmita no trabalho. O micro-ondas que não existe, o cheiro no escritório, o molho que encharca tudo até quinta-feira.
As três versões linguísticas numa só compra.
